CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

30 de janeiro de 2013

Que tal participar de nossa brincadeira de Carnaval?



Vamos construir uma crônica a várias mãos, que nem aquela brincadeira onde um fala uma frase e o outro continua a história, lembra?

Para você se inspirar, e já que este ano comemoramos o centenário do escritor Rubem Braga, mestre da crônica brasileira, selecionamos, com a ajuda do escritor Carlos Rosa, duas crônicas de Carnaval do Rubem. Clicando nos links abaixo você pode lê-las.






Para participar da construção coletiva, basta você publicar no campo “Comentários” uma frase ou parágrafo sobre o tema Meu carnaval preferido. Ao final teremos nossa estória montada.

Você tem até o dia 1º de fevereiro às 12h para participar, ok? mas quanto antes, melhor, para que a estória se desenvolva e permita acréscimos e outras considerações.

Os participantes concorrem ao sorteio de um livro, que será efetuado na reunião do CLIc, na sexta, dia 1º de fevereiro, na livraria da EdUFF.

Participe e boa sorte!

28 comentários:

  1. Eram seis horas da tarde. O sol seguia ainda brilhante por conta do horário de verão. Eu espiava pela cortina a moça do apartamento de frente experimentando sua roupa de Carnaval. Ela era destaque da Unidos da Viradouro e usava um biquininho, ó...

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  2. Contemplei seu corpo, temeroso de ser descoberto em minha travessura de homem-menino, e mais que seu corpo admirava-me a alegria em seu rosto, como se aquela fantasia resumisse a vida, uma felicidade inteira concentrada naquele momento, naquele desfile, alguns minutos de êxtase na passarela. Ela experimentava a fantasia... e, confesso, eu também. Claro, a fantasia que eu experimentava estava apenas em minha mente, era a fantasia de um amor de Carnaval. Sim, é verdade, o biquini minúsculo e o corpo convidativo em muito contribuíam para isso. Mas espiar aquele momento mágico, o instante do encontro da artista com seus aparatos de corpo - as sandálias enfeitadas, a tanguinha, as plumas, os seios em purpurina e, por fim, o adereço de cabeça com mais plumas - observar esse momento e o brilho dos seus olhos, puxa, isso sim me levava à paixão, claro, claro, sem jamais desconsiderar o tônus de sua pele e suas formas apetitosas... Embora eu me escondesse aqui, no outro bloco deste prédio, vizinho oculto, perguntava-me até onde iria a coragem dessa minha paixão. Como faria para abordá-la? O que eu poderia dizer?

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  3. Seu corpo era escultural. Depois de vestir as duas peças,que eram recobertas de paetês coloridos, ela se contemplou no espelho do armário, virando de um lado e de outro para melhor apreciar a linda imagem ali refletida. Talvez já impulsionada pelos momentos carnavalescos que a esperavam, ensaiou uns passos que deveriam seguir o ritmo do samba-enredo de sua escola. (Gracinda Rosa)

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  4. tou me guardando pra quando o carnaval chegar

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  5. - foi o verso que lembrei, a música que sempre me pareceu anunciar o Carnaval como o ápice da alegria, da felicidade, do amor. "To me guardando pra quando o Carnaval chegar...", chego a ouvir o Chico, o MPB4, e agora o objeto do meu desejo estava ali, sambando para o espelho do armário, sem saber que me guardava atrás da cortina e, afinal, o Carnaval estava chegando.

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  6. Ah, tesão! Se ela sonhasse que tenho a maior fissura nela! O máximo que consegui chamar sua atenção foi quando fiz de conta que não a via e cruzei a sua frente, naquele dia à saida da farmácia, sem tempo para que ela se desviasse de mim, tropeçasse e sem se desculpar me fuzilasse, ah seus olhos!, lascando um depreciativo “MENINO!”. Injustiça! Ela que pensa, sou grande já, e ela gostaria bem de mim se soubesse como sou. Fiquei com o perfume dela nas ventas. Respirei fundo e prendi o ar, andando um tanto de olhos fechados, pra sentir bem como ela era. “Um dia vou ter uma mulher assim”, me prometi. Enquanto isso, já nesse Carnaval vou tentar alguma coisa, vou azarar. Ah, que vou! Mulher que gosta de ser destaque aprecia ousadia.

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  7. Enquanto era observada sem saber ser objeto do desejo, começou a ensaiar uns passos em frente ao espelho. Seria o espelho meu único observador e crítico...Será que na avenida, alguém irá notar os descompassos do meu coração?...

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  8. A moça de corpo escultural pensando estar sozinha em seus pensamentos, sonhava encontrar a felicidade que já espreitava com grandes olhos pela fresta da janela. Na verdade não era a almejada felicidade, mas a obsessão dele pelo corpo já que o coração não interessava nem no compasso do samba na avenida. Amor de carnaval...

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  9. Lá está ele, de novo me olhando através da transparente cortina de pequenas e delicadas flores. Hoje de manhã esbarrou em mim, na porta da farmácia e eu fingi não reconhecê-lo. De tão surpresa quase não contive minha alegria e gritei: -“MENINO!”. Sim, sempre ele, povoando meus sonhos, aquecendo meu corpo mesmo tão distante... tão menino, tão ardente, tão transparente e ao mesmo tempo tão simulado. E tão desejado... Ele não sabe que é pra ele que eu me visto e me dispo... (Rose Pinto)

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  10. No entanto, não posso desistir agora, finalmente serei destaque na avenida e o Jorge que me deu esta oportunidade, não pode descobrir que meus pensamentos não são dele. Nem quero imaginar o que pode acontecer, Jorge é violento, já me avisou que está com a barba de molho e seria uma tragédia uma barba ensopada de sangue

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  11. Ela estava ansiosa para entrar na Avenida, portando a bandeira da Escola, dançando e requebrando-se ao rítmo do samba-enredo. Faltavam poucas horas para realizar o sonho que a acompanhava desde menina. Mas, sob os cílios postiços, o rímel, as pálpebras coloridas, seu olhar trazia, quase imperceptível, uma sombra de preocupação. Joca, seu companheiro de alguns anos..Ele não aceitava ver a mulher que era sua, como dizia, exibir-se para outros homens. O corpo quase nu, os seios à mostra, as pernas bem torneadas, o exíguo biquini que mais realçava, do que cobria, seu trazeiro roliço e bem fornido, e, ainda por cima, seus requebros voluptuosos. Era demais para ele. Machista, orgulhoso e possessivo. Características que já a estavam cansando. Entretanto, ela pediu, implorou, disse-lhe que, na Avenida, era para ele que dançaria. Que a deixasse viver seu sonho. Que esta seria a primeira e última vez, prometia.Tanto fez, e tanto falou, e tanto chorou, que o convenceu. Mas... Joca estaria, realmente, convencido?

    Elenir

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  12. Pobre Joca! Que vida é essa? Era preciso parar de se enganar. Seu envolvimento com vários homens ainda iria lhe prejudicar. E muito! Poderia acabar em tragédia! Joca não imaginava que ela tinha um amante. Joca e Jorge certamente se envolveriam em violenta briga se soubessem da existência um do outro. Arranjaria uma forma de se afastar de Jorge após o Carnaval. Seu envolvimento com ele era recente e sabia que não era nada sério. Também tinha que parar com as doentias fantasias exibicionistas com o homem da janela. Era preciso parar de ser leviana. Isso só a vulgarizava! Não pensaria nisso naquele momento. Seu sonho de entrar na passarela estava prestes a se realizar.

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  13. Ai que estresse que é todos esses homens babando na sola de meu sapato. Nenhum deles pode me dar o que eu quero. Quero brilhar, fazer sucesso, conquistar meu lugar no mundo. Um bando de carcamanos que acham que vou empatar meu futuro em pouca coisa. Daqui quero ir pro BBB, pro Metropolitan, chega de miserê. Quero sair desse cortiço infestado de voyeurs, de marmanjo que acha que é dono da gente, só porque um dia nos enganamos e fizemos algumas concessões, dispensando um sorriso ou uma palavra de cumprimento na portaria. Que venha a virada com esse destaque na Viradouro. Deus que me livre da sina de minha mãe que não conseguiu nada na vida. Os homens de minha mãe só lhe legaram desgosto, deixando-a na rua da amargura. Chega de jocas, zecas, jorges, agora quero johns, winstons, newtons.

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  14. Jurei para o Jorge que essa seria última vez. Joca também acretida nisso. Mal sabem eles...
    Pedrão prometeu que no próximo ano serei Madrinha da Bateria.
    Luzia Veloso

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  15. A linda cabrocha estava tão preocupada com suas formas e imagem que nem percebeu que Jorge estava enfeitiçado pela beleza da filha do diretor da Escola, uma loura fenomenal que havia se preparado para ocupar lugares de destaque na Escola e se submeteu a implantes de seios, de nádegas, panturrilha e até na sola do pé, para poder sambar em saltos altíssimos que precisa de certificação em equilibrismo para se manter em pé, que dirá sambando com esplendor pesado nas costas e sempre sorrindo de felicidade.

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  16. E ela continuava a viajar em seus pensamentos. Vou desfilar a frente de 200 ritmistas, que estarão obedecendo ao Mestre, mas é a mim que eles estarão reverenciando. Terei também não só os olhos do menino do olhar peralta, mas de toda uma arquibancada. Vou brilhar! Vou brilhar!

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  17. Sim, o menino do outro lado me encanta, pela doçura de sua timidez, mas quem já tem Jorge e tem Joca, que em breve dispensarei, não precisa de um menino tímido e apaixonado. Preciso de Pedrão, do futuro que ele pode me dar, pelo menos do futuro imediato. Depois, sim, fora Pedrão e que venha a Globo, as capas de revista, quem sabe novelas. Corpo pra isso eu tenho. Por que desperdiçaria minhas oportunidades com esse garoto olhudo e mudo? Ele é bonitinho, com seu jeito envergonhado, mas a vida não é um conto de fadas.
    * * *
    Ela sambou diante do espelho... estaria a se mostrar para mim? Sinto que ela me quer. Vive cercada desses brutamontes; nenhum deles tem o sentimento que eu tenho por ela. Sinto uma intensa atração, sim, mas ela mexe com meu coração, eu poderia amá-la de verdade, eu a faria feliz, eu me casaria e me esforçaria por ela. Ela não faz ideia... Eu sou o que ela precisa. Um cara sensível. Ela saiu da janela... está se trocando... está saindo... Vou descer correndo, vou falar com ela lá embaixo. Adeus janela, adeus cortina. Espero encontrá-la na rua.

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  18. Na rua, ele viu, minutos depois, a sua paixão que encontrara um homem.Discretamente ele se aproxima e ouve:
    -Mas é verdade que sua fantasia tem preocupações ecológicas, que trata de temas politicamente corretos?
    _É claro, represento as biodiversidades.
    -E o que vai usar para isso?Ouvi dizer que usa plumas de diversas aves,couro de jacaré?É verdade?
    _É...um pouco, afinal meu biquini é mínimo!
    -Não tem medo de que as pessoas se revoltem e façam uma manifestação durante o seu desfile?
    ...............
    Aquele chato a estava importunando.Resolveu se aproximar mais.

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  19. E então o menino se fez homem, estufou o peito, lembrou da recente leitura da biografia de Marighella e se animou, ganhou brio, e chamou com voz de macho, sem saber que era Joca, apelido valente, seu rival de momento: “Ei, você aí, deixa a moça em paz que ela está comigo”.

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  20. Porém, a magia do carnaval falou mais alto ao som de uma marchinha. Embriagado de lança perfume e amor, ele desapareceu com sua eleita em meio ao bloco pré carnavalesco que desfilava na rua naquele exato momento.

    Vera Freire.

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  21. Mas ele não estava embriagado, apenas, de amor e lança perfume. Havia tomado umas "bagaceiras" e começava a cruzar as pernas para andar. Aquilo não era dança, pensava ela,aflita.
    Elenir

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  22. E na multidão, ele a perdeu. Um momento de descuido, uma olhada para o lado e... ela se foi! Joca virava a cabeça, olhando por cima de ombros, entre milhares de cabeças, máscaras, perucas, sorrisos, onde, onde? Salta para procurar melhor, é empurrado, esbarra em corpos suados, agora desagradáveis, que o conduzem para onde não quer ir. E lá vai Joca, levado pela corrente humana que pula, ri, berra. Ele também empurra, tentando se livrar daquela enchente de povo, aquele irresistível fluxo infame que parece afastá-lo de sua amada, sua amada... Quem a levou? Ou ela se perdeu, indefesa e quase nua, a mercê de algum bruto? Joca esmurra a carantonha pintada que parece lhe sorrir, soca as costas negras e luzidias que lhe impede o caminho, grita, torna-se um aríete enlouquecido, desesperado para livrar-se daquele inferno. O pensamento não para, ele a vê forçada, violentada, possuída por algum caubói, ou por um palhaço como aquele que urina atrás da árvore. Joca bate, empurra, e também é agredido. Toma um chute, um soco, leva safanões, agarram-no pelo braço e o arremessam na sarjeta. Tonto,ferido, ensanguentado, Joca olha aquilo tudo, a multidão sem sentido, a alegria insana; por quê? Para quê? Onde, Meu Deus...? Seus olhos ainda procuram. Então ele vê, num canto de parede, um corpo escultural coberto pelas duas peças com paetês coloridos, uma beleza de mulher capaz de obscurecer qualquer beldade desses BBBs da vida. Ela, era ela. Envolta em braços alheios, uns braços peludos, mãos que penetravam pela calcinha, dedos que percorriam seus montes, planícies, florestas... Joca se esqueceu das dores, levanta-se furioso, de novo um aríete enlouquecido, mas dessa vez ainda mais endoidecido pelo ciúme, pela gana de tirar sua amada dos braços de outro. E Joca se mete no meio dos dois: "Larga ela! Larga seu f.. da p...!"
    Ela se afasta, se encolhe. E diante de si Joca vê um homem assustado, um senhor de cabelos brancos, ainda forte, mas um idoso amedrontado e estático. Então, Joca também para diante do homem. Olha-o surpreso, pasmado, atarantado, seus lábios apenas balbuciam: "Papai... papai..."

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  23. Essa última postagem, aí em cima, é minha, Carlos. Sou anônimo não, só esqueci de botar o nome. Abraços.
    Carlos Rosa.

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  24. Rolou sangue nessa noite. Jorge e Joca enfurecidos e loucos de ciúmes brigaram até a morte e, lá os dois corpos já estavam estendidos no chão.. Alguém os cobriu com a bandeira da Escola.
    Ao longe, aquela morena escultural estava nos braços de Pedrão e faziam planos para a entrada triunfal da Madrinha da Bateria no próximo Carnaval. Luzia Veloso

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  25. -"Mamãe, vem ver na televisão uma notícia extraordinária. Em todos os canais". - Minha filha, chamava-me.
    -"Ataque terrorista põe fim ao Sambódromo, dizimando tudo e todos que ali estavam!"
    O destino não compartilhou dos planos de Pedrão e de sua morena fagueira. Não quis que ela ficasse com nenhum dos tres. Pensei. (Elenir)

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  26. Na concentração, envolta em dúvidas, temores e inseguranças Ana volta a vislumbrar a figura do menino, dirigindo-se a ela em meio à multidão. Seu menino, seu único e verdadeiro amor. Quisera perder-se em seus braços, quisera não desejá-lo tanto, quisera não fosse tão menino... Joca, Jorge e Pedrão, com suas fantasias machistas, suas alucinações, suas violências e suas brigas jamais terão um verdadeiro espaço em sua vida. “Abro mão de tudo, abro mão de todos. Que venha o meu menino, com sua pele clara, seu cabelo liso, seu jeito de príncipe.
    Grimaldi... que sobrenome estranho que ele tem...” (Rose Pinto, para ser lido depois do comentário do Carlos Rosa)

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  27. As imagens de destruição do sambódromo foram manchetes dias seguidos e o Rio de Janeiro ficou de luto. Na charge do Chico, porém, além da morena boazuda com três homens a seus pés, ardendo em luta canina, tremulava a bandeira da Riotur com a faixa: Meu carnaval preferido

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