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O Clube de leituras não obrigatórias

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16 de dezembro de 2012

Natal: Ilnéa País de Miranda



E então era dezembro, como sempre era dezembro depois do trigésimo dia de novembro, que como sempre acontecera depois de outubro. É, era dezembro como no mínimo  vinha sendo dezembro por alguns tantos quase dois mil anos - um tempo maior que a eternidade para quem não era muito mais que um projeto de gente de uns poucos anos, aos quais tão logo juntaria mais um. Sim, pois como o Jesus do berço de palha que depois crescera e se encarrapitada sobre a bandeira da porta da sala de visitas da casa da Vó Neném , também  eu, menina pequenina, era de dezembro, como de dezembro era minha outra a Vó, a Betina, que era do dia seguinte. Que dia seguinte? Ora, do Natal, naturalmente. 
...e se passou muito tempo até que eu me desse conta de que Natal era aniversário de Jesus...
Naquele tempo ninguém falava disso, nem tampouco o Natal começava ontem: Natal, quando eu era pequena, era dia 25, a manhã do dia 25. A gente adormecia ontem e, pela manhã, com sorte, encontrava um - quase nunca mais que um - pacote, cujo conteúdo às vezes aproximava-se do desejo.
E o desejo era muito particular: um segredo entre eu e o menino. 
E não sei de onde partia a escolha do tal presente especial, recompensa por todo um ano de obediência e bons modos que haveria de chegar naquela tal manhã especial. 
Assim era dezembro, a um só tempo  mês de alegre expectativa de festa e de arrependimento pelas pequenas má-criações e maldades ainda menores porventura  praticadas, que, para os adultos eventualmente pudessem por um  momento ter sido motivo de alarde e censura - às vezes até uma palmada, um puxão de orelhas - não passavam de traquinagens sem consequência. Para mim, muito ao contrário, eram razão de profunda reflexão e recriminação.
Ah!... por que eu não deixara quieto o gato ao invés de lhe ter puxado o rabo quando dormia ronronando mansinho no canto da cozinha? por que sacudira o galho da mangueira para pegar a manga madura que eu não alcançava se eu sabia que o Vô Chiquinho não gostava porque fazia cair também as mangas verdes? e - grande pecado! - por que negara a Vó Neném a tampinha da laranja que ela descascara para mim? 
AH!... quanto remorso sentia o meu coraçãozinho apertado no peito!... e quanto medo de  não receber nenhum presente no Natal!
Pois é. Na realidade o remorso não era bem aquele do ter feito: o remorso era pelo efeito do ter feito.
E vinham as promessas solitárias para o ano seguinte. Promessas de não fazer e outras de remediar. O gato poderia dormir quieto quantas vezes quisesse, onde quisesse, por quanto tempo quisesse. Puxar-lhe o rabo? nunca mais! As mangas poderiam apodrecer no pé, eu é que não iria sacudir galho mais nada. E minha avó? Esta passaria a chupar todas as tampinhas de todas as laranjas - mesmo aquelas que eu mesma descascasse.
E sei lá se eu não rezava umas não sei quantas rezas truncadas, por que rezar não sabia direito. Às vezes até pensava rezar e pedir perdão de joelhos nos caroços de milho como eu havia visto a Santa Terezinha da peça do circo fazendo... mas voltava atrás porque achava que eu não era nem seria nunca santa mesmo.
Por tudo isso, e mais o fim do ano escolar - que nem era meu, mas da escola da minha mãe que era a ela muito dedicada - meu aniversário, que era a dezesseis, passava meio atropelado.  Não entendia por que - já que havia um tal Papai Noel responsável por trazer de algum lugar o tal presente especial e parecia que ninguém precisava pagar por ele - meus pais diziam que não podiam gastar muito com festas para mim porque já, já, seria Natal e tudo custava muito caro para o dinheiro pouco. Eu não entendia nada. Para mim gente grande era mesmo um pouco doida. Afinal, por que tinham que gastar dinheiro para me dar uma coisa que eu é que  teria que pagar com “boa-mocisse” e bom comportamento? 
Caro ficava era para mim que além de ter que barganhar com Jesus meus pecadilhos, ainda ficava meio sem festa de aniversário e meio sem presente.
Mas nada disso importava: eu adorava ser de dezembro. Só não gostava que fosse tão quente. Mas isso é coisa que nunca entendi porque. 
Não me lembro de presépios nem de árvores de Natal nas casas que eu freqüentava na minha infância. Lembro sim o enorme presépio armado na Catedral de São João Baptista, onde tudo se mexia. Acho que até o Menino Jesus mexia as perninhas enquanto a vaquinha balançava a cabeça. Tinha tudo no Presépio. Um bando de bonequinhos: uns, muito bem vestidos em seda e dourado que seriam os Reis Magos, uns outros vestidos com simplicidade diziam-me ser os pastores - o que não me incomodava, pois eu não estava nem aí para as tais ditas diferenças sociais. Eu gostava mais era de ficar olhando a mulher fiar a roca, o carpinteiro bater o martelo, o moinho ser tocado pela água do riachinho que nunca parava de correr.
E havia que preparar as comidas especiais. Na casa do Vô Chiquinho, português, não podiam faltar castanhas,  rabanadas ao vinho,  rabanadas ao leite    ( que a minha avó nunca me deixava de dar uma assim que pronta pois sempre gostei delas quentinhas, com bastante açúcar e canela) e o bacalhau de primeira, do Porto como convinha, regado ao melhor azeite da Terra, e ao bom vinho tinto da mesma procedência.
Isso tudo aí em cima era para o almoço de 25, pois que, como já disse, no meu tempo de menina nem se falava em ceia de 24. Muito menos de presentes de véspera. Na véspera, ouvia dizer, algumas pessoas iam a uma tal Missa do Galo, que eu em minha santa ignorância infantil, matutava: o que poderia fazer um galo dentro de uma igreja, durante uma missa, mais do que cacarejar atrapalhando o padre ou soltar porcarias pela nave.


5 comentários:

  1. Aniversário a 16?Parabéns, minha querida. Não vou desejar-te mais coisas boas,porque se não estraga.Você já tem tudo que se pode ter:uma família linda, um cão seu amigo,um grande amor no coração, amigos que a admiram e escreve bem demais! Também é "assim" (dedinhos juntos)coma poesia.Ela não sai do seu lado. E que beleza esse seu texto! A gente valoriza ainda mais o que já teve ou tem.O CLIc te admira e você é nossa!
    Elô

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  2. Ilnéia!
    Pois,pois...então voce aniversaria hoje e nos dá de presente este belo texto!

    Que texto!Através das palavras, vou visualizando as cenas,e descobrindo aquela pequena menina,observadora,inocente, registrando na memória ,o que iria transfoemar em palavras e sentimentos!

    Parabens! Ceci

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  3. Muitos parabéns a nossa querida Ilnéa! Adorei o texto.

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  4. Que texto bonito, simples, expressivo, que conta de de uma criança que todos nós fomos um dia.
    Sua alma, minha amiga querida, será eternamente jovem pois sabe expressar com emoção e ternura os sentimentos de uma infância que permanece bem cuidada na sua mente...
    Saúde, paz, boas energias e muitas alegrias por mais um aniversário. Parabéns!!!

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  5. Parabéns pelo seu dia especial (16/dez)!!
    Texto lindo!
    Beijos, Patrícia

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