CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

30 de outubro de 2012

VIDA BARATA: novaes/



Se nasci pedra, morrerei poeira?
Se contenho fogo, morro-me nos 70% de água do meu corpo e por isso sou este ser dúbio,
atormentado, afogado na quentura da vida?

Eu sou o que não li - mais do que o lido.
Sou a ausência, mais do que meu corpo neste espaço,
sou anuência com a perda de sentidos
ainda que eu sinta a repulsa mais repulsiva possível, repugno-me e refaço
meu inseto interior, meu cérebro pastoso, sem cor.

Sou disso tudo apenas palavras
- estas, que algum autor lavra -
e fragmentado em letras torno-me apenas símbolos
do meu próprio preâmbulo: projeto de ser
pessoa sem viver, sugado para dentro das páginas
- que é uma forma doce de se morrer.

É para este fim que o livro me arrasta
como se desejasse me consumir
- não eu a ele, mas ele a mim! -
eu, pedra, de coração duro e olhar seco
inanimado, mas testemunha eterna deste mundo.

Sem olhos, sem lágrimas, sem nojo, sem prazer.
Um ser que o livro tenta reanimar: "acorda!"
mas que me anula, se eu deixar. Nele eu veria até "a corda" de enforcar
se me fosse dada a ilusão de que poderia ser-me naquelas páginas
que poderia ver-me na tinta, nos símbolos,
sentir-me nos personagens e suas lágrimas.

Mas é tudo mentira. Ilusão. Como se em nós
não coubesse a explosão do átomo original,
nem a expansão contínua do Universo.

Somos finitos demais. Somos pequenos por demais
e é por isso que mergulho no inseto
no chão
no quarto
na vida encerrada na minúscula perspectiva
daquela vida morta
estraçalhada
e me vejo rastejando em busca de algo mais
do que o simples nojo
e vejo na insignificância explicações estratosféricas por que isto é justo:
minha finitude transcende a pequenez
por que se revela.
Expõe o que não queremos ver. Mastiga
o intragável gosto da autodecepção.

Os sonhos são lindos e fundamentais
- mas um dia nos deparamos com alguém gritando:
"acorda!".

Quando os olhos se acostumam ao breu,
constatamos: foi um livro.


3 comentários:

  1. Melhor imagem, não o representaria!rsrs
    Lindos, os justiceiros!
    Muito bom ,expressivo , o poema!

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  2. Muito legal o poema! Tudo a ver com a "viagem" que é esse livro. Legal também sempre termos poemas e inspirados em cada um dos livros lidos pelo clube. Vocês são um presente!

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