CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

1 de agosto de 2012

Homem Comum - Philip Roth (1/2)



Philip Roth: Homem Comum
Comentários de Leitores:

* * *


Boa noite, CLIc-leitores

Já que os digníssimos membros deste Clube são mais nietzschianos do que eu pensava, e preferem o “super-homem” ao “homem comum”, me proponho a quebrar o gelo fazendo os primeiros comentários. É o que segue.

Do autor do mês eu havia lido apenas “Indignação”, aqui mesmo no Clube. E como naquela ocasião, também nesta senti que o livro é mais intenso, interessante e pungente na segunda metade. Foi o que salvou minha leitura. Aliás, houve um momento, impulsionado por alguns trechos recorrentes, em que tive de parar a leitura para averiguar na capa do livro se se tratava mesmo de um romance de P. Roth ou era o novo livro do Dr. Dráuzio Varella. Não me levem a mal, vejamos porque me ocorreu esse lapso, os trechos abaixo podem clarificar a situação:

Mais uma vez, porém, sua sorte funcionou, e o problema foi resolvido com a inserção de um stent, transportado por um cateter enfiado através de punção na artéria femural, passando pela aorta, até chegar à oclusão.” p. 50

[...] do ponto de vista médico não era nada de extraordinário; pelo menos era isso que dizia o simpático cirurgião, o qual lhe garantiu que a endarterectomia da carótida era um procedimento cirúrgico vascular comum, [...]” p. 53

Um ano depois da cirurgia na carótida, fez um angiograma e o médico detectou que ele sofrera um infarto silencioso na parede posterior porque uma das pontes sofrera uma reestenose.” p. 56

Encontrou alguns discos adesivos para uso com eletródos do eletrocardiógrafo ainda grudados em seu corpo [...]” p.58

[...] enquanto instalavam nele um desfibrilador em caráter permanente, para protegê-lo da situação nova que estava ameaçando sua vida, e que, juntamente com a formação de uma cicatriz na parede posterior do coração e um volume cardíaco problemático, tornavam-no forte candidato a uma arritmia cardíaca.” P. 58

Quando voltou ao hospital para fazer o check-up anual das carótidas, o exame de ultra-som revelou que a segunda carótida estava seriamente estenosada e requeria cirurgia.” p. 114

Nobres colegas, me perdoem o excesso de citações, mas estes trechos recorrentes me chamaram a atenção. Achei mesmo um pouco chata a primeira parte do livro por causa desse “centro hipocondríaco" que conduzia a narrativa. Coisa que aconteceu na segunda parte, mas em menor intensidade.

Caríssimos, fico por aqui, mas volto mais seriamente para comentar algumas coisas interessantes deste livro de Roth.

Um abraço a todos,

Antonio R.

* * *

Antônio, vc tem certa razão, se não fosse a loja do judeu, eu nem reconheceria o Roth. Mas o que fazer, é a vida, ou melhor, é a morte chegando cada vez mais perto.

Não há como evitar viver entre esses termos numa certa fase ou quase sempre para alguns "premiados".  O livro como sempre chega num momento chave de minha vida pessoal e destaco frases sensíveis que muito me comoveram:

Nunca parou de se preocupar com Nancy e também nunca chegou a compreender como chegou a ter uma filha como aquela (pag 59)
.
..."jamais morrera em sua cabeça a fantasia de que seus pais iriam se reconciliar." (pag. 61)

"Mas não há como refazer a realidade"........". O jeito é enfrentar. Segurar as pontas e enfrentar. Não há outra saída."

Abraços saudosos

Muito deprê e verdadeiro

Elô

* * *

Grande Antonio,

Que bom que vc me avisou que melhora do meio pro final. Mas, que pena, não sei se chegarei até o meio...

O que salva é a pizza e essas brilhantes companhias.

Abs,
Newton

* * *

Caro Newton,


Você é terrível (risos). Pura maldade sua.

Sinto muito, mas acho que você provavelmente já leu o final, pois a cena inicial é justamente o fim. Acho que posso dizer isto porque logo se percebe ao continuar a leitura. Eu diria que em linhas gerais este livro de Roth é uma tentativa de pensar a finitude da vida, ou a temporalidade/atemporalidade do ser, que são velhas questões do pensamento humano. O personagem principal experimenta desde cedo a aflição da ameaça à vida, quando ainda era um menino teve de passar por uma cirurgia de hérnia. E ao longo da vida foi sempre atormentado pelos problemas de saúde. No final da vida, havia sido internado consecutivamente nos últimos sete anos. E teve seu fim onde mais temia, onde mais a vida lhe parecia frágil e ameaçada. Tenho algumas anotações e observações interessantes, mas vou esperar mais um pouco para não atrapalhar a leitura de quem ainda está lendo. Depois posso, como sempre fiz, compartilhar minhas impressões.

Eloísa, há mesmo alguns trechos marcantes, pelo menos eu acho. Até lembrei do Carlos, nosso amigo escritor, lendo o trecho que segue abaixo, e que reflete todo o amor que o protagonista sentia pelo mar, pelo nado, pelo gosto salgado da água, que era para ele o próprio sabor da vida, da felicidade e da existência:

"Corria para casa descalço, molhado, salgado, relembrando a potência daquele mar imenso a ferver em seus ouvidos lambendo o antebraço para sentir o gosto da pele recém-saída do oceano, tostada pelo sol. Juntamente com o êxtase de passar todo o dia sendo socado pelo mar até ficar tonto, aquele gosto e aquele cheiro o inebriavam de tal modo que por um triz ele não cravava os dentes na sua carne para arrancar um pedaço e saborear sua própria existência carnal." p. 93-94

Um abraço, queridos

Antonio R

* * *

Olá, clube incomum

Antonio, achei ótima sua comparação com o Drauzio Varela. Compartilho sentimento semelhante. A meu ver Homem comum peca pelo excesso de termos médicos e tratamentos e doenças. Muito chato isso. Ao mesmo tempo, talvez incomode porque nos desperta o medo de que esse pode ser nosso futuro ou o de alguém querido nosso. Mas, por enquanto, prefiro não pensar nisso. Não adiantaria nada mesmo e quem morre de véspera é peru.

Para mim a mensagem mais bonita do livro - que apesar dos pesares considero bom - é a de que a vida nunca se repete, por isso devemos vivê-la o mais plenamente possível, sendo franco sobre nossos desejos e aspirações e dividindo a alegria e um pouco de nós com quem se ama, realmente. Sem isso, a alma é pequena.

Beijinho de boa noite para todos vocês,

Rita Magnago
* * *

Oi grupo

Terminei hoje a leitura do livro. Minha expectativa estava alta, pelos positivos comentários de amigos e, até o final, fiquei esperando o motivo para isto. Não fujo deste tema, muito pelo contrário. Mas busco uma abordagem com sensibilidade, poesia e até beleza, o que encontro inúmeras vezes, mas não achei no "Homem comum".

Confesso que não foi nada agradável ver a descrição fria dos procedimentos médicos, hospitalares, como comentou o Antônio, já que recentemente os vivi com a fase terminal de minha mãe. A frase “Deixou de ser, libertou-se do ser sem sequer se dar conta disso. Tal como ele temia desde o início.” (pg 131), também me remete ao drama dela. Constantemente dizia que não tinha medo de morrer, mas de ficar isolada e imobilizada num CTI. Foi exatamente o que aconteceu. O medo parece atrair.

Acredito que deveríamos ser educados a acolher as perdas, que são tantas ao longo da vida. E entender que é impossível ser e ter mais, mais, mais. O menos é necessário e muito rico, pois trata-se de uma capacidade de desapegar de ilusões: da saúde e do amor eternos, de sonhos irrealizáveis.

Talvez o mais tenha me chamado a atenção foi a questão da dor.
A dor deixa a gente muito sozinha.” (pg. 69)

Teria ficado sem medo, pensando apenas: finalmente a dor passou, a dor finalmente foi embora, agora é só dormir e ir embora desta coisa extraordinária?"(pg. 119)

Fez-me lembrar de um capítulo do livro "Carência e Plenitude" de Jean Yves Leloup, que chama-se "conferir sentido ao inaceitável" que diz que dor e sofrimento não são exatamente sinônimos. A dor é parte integrante da experiência humana e o sofrimento é um modo de interpretar a dor. O autor até apresenta quatro estágios de reagir, viver e interpretar a dor, aqui apresentadas em resumo:

1. dor sem sentido - como um mal que a pessoa quer eliminar a qualquer preço, sendo capaz de procurar o médico, psicoterapeuta ou curandeiro;
2. dor como ocasião de provar nossa força ou coragem. Uma oportunidade de manifestar nossa grandeza da alma. "O homem que sofre é, sem dúvida, maior do que seu sofrimento";
3. o absurdo, o sofrimento, a solidão e a morte, todos esses inevitáveis que, um dia ou outro, deveremos enfrentar são, neste caso, assumidos e transcendidos. "O condenado reenviado a si mesmo em razão de seu sofrimento pode estabelecer um contato com as raízes de sua existência e com a origem de uma vida mais humana e a caminho de sua plenitude";
4. a não interpretação, o não questionamento dos males pela aceitação do sofrimento e da morte como inerentes à vida.

O autor continua descrevendo outros estágios, incluindo aqueles que oferecem seu sofrimento voluntariamente em busca de consciência e liberdade espiritual.

É muito forte quando fala de derrelição: aquele momento que o ser acredita que foi abandonado por todos, até por Deus, quando não há mais nada que se possa fazer, apenas suportar, com paciência, em silêncio.

Eu prometi beleza e poesia não foi? Então aqui está:

"Não me deixe rezar por proteção contra os perigos,
mas pelo destemor em enfrentá-los.
Não me deixe implorar pelo alívio da dor,
mas pela coragem de vencê-la.
Não me deixe procurar aliados na batalha da vida,
mas a minha própria força.
Não me deixe suplicar com temor aflito para ser salvo,
mas esperar paciência para merecer a liberdade.
Não me permita ser covarde, sentindo sua clemência apenas no meu êxito,
mas deixe sentir a força de sua mão quando eu cair."

(Rabindranath Tagore em Colhendo Frutos. Isto está na página 5 do livro "Sobre a morte e o morrer" de Kübler-Ross)


ESTE QUARTO
 
"Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto...

que me importa esse quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o céu! imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.

Pois o céu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousado em mim.

A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim..." 

(Mário Quintana)

Abraços!
Cristiana

* * *
Olá,  

Quem leu "As cores do Crepúsculo", de Rubem Alves, e teve, portanto, a oportunidade de ver a questão do envelhecer de uma forma, digamos, mais poética, não achou demasiado o pessimismo do personagem em relação à velhice? Veja: 

"A velhice não é uma batalha, a velhice é um massacre." p.114

Outra questão que acho importante é a do materialismo do personagem. Embora judeu no sangue, era cético no plano da religião. Mas não era bem resolvido em relação a isto, o que dá a impressão de que alguns conflitos resultavam daí. O ponto que acho refletir bem isto é o trecho da página 124, que diz:

 "A carne vai embora, porém os ossos permanecem. Os ossos eram o único consolo que restava para alguém que não acreditava na vida após a morte, e sabia, sem nenhuma dúvida, que Deus era uma ficção, e que aquela vida era a única que ele teria." 

O personagem sente paradoxalmente medo do esquecimento (a carne que vai embora) e um desejo de eternidade (os ossos como memória). Essa angústia parece acompanhar o personagem por toda a vida. Pode-se perceber claramente como está preso a "substanciabilidade do corpo", não cogitando sequer que alguém possa se eternizar pela "insubstanciabilidade" das idéias, por exemplo, ou da arte, que ele próprio tivera a oportunidade de fazer, pintando seus quadros. Acho que esse é um ponto que dá muito o que discutir.

Vera e Eloísa,

É possível encontrar alguns trechos que se encaixem no momento ou na vida de cada um. Roth está falando sobre a vida, sobre os conflitos que todos sentimos, sobre o medo, sobre a vontade de viver mais quando o fim está chegando etc. Por isto uma ou outra frase pode nos encontrar e nos fazer pensar sobre nossa própria vida. 

Sds,

Antonio R

* * *

Antônio, legal seus comentários. Mas penso que, pelo que é mostrado, não vejo o personagem em paradoxo com o que vc postou.

 "A carne vai embora, porém os ossos permanecem. Os ossos eram o único consolo que restava para alguém que não acreditava na vida após a morte, e sabia, sem nenhuma dúvida, que Deus era uma ficção, e que aquela vida era a única que ele teria."


Ele está bem seguro disso, nada mal resolvido em relação a Deus. É natural que lamentemos o esquecimento do que vivemos, nossos papeis, nossos momentos por parte dos que ficam. Por isso, quem não crê em Deus , não acredita numa outra vida, pode ser dar ao direito de ser bem pessimista. Afinal, a que viemos? Às vezes até atrapalhamos os outros com nossa morte...

Vivemos ainda enquanto somos lembrados, vivemos transformados em outros corpos: vermes rsrs larvas! rsrs


Quanto ao seu comentário para Vera e para mim, certo, o livro fala da vida, e quanto mais velhos, melhor vemos e sentimos o que o autor nos diz. Por isso: Carpe diem!


PS.: Não precisamos morrer pra cair no esquecimento... Muitas vezes, nem para nossos e-mails encontramos respostas.

Abraços

Elô

* * *

Antonio,

estou exatamente no meio e sinto o mesmo que você. Em princípio achei que o "tédio" às vezes me abatia por consequência de fatos vividos por mim recentemente em hospitais...Pensei: Basta! Não quero mais isso pra mim,mas depois fui tentando encontrar passagens que considero "sensíveis",como:

Eu nunca poderia aceitar perder você.(39).

Eu olho esse rosto desde que nasci--parem de enterrar o rosto de meu pai. (48)

...mas naquele momento sua dor era mais fácil de aceitar que a dela (59)

Mas há pessoas assim, pessoas de uma bondade espetacular- milagres, na verdade.(59)

... da necessidade de recuperar a criança que foi para poder pintar como adulto...(64)

É que a dor deixa a gente muito sozinha...(69)

Bem,vou parando aqui. A gente sempre encontra coisas que nos falam ao coração, é só saber "ouvir".

Meu carinho sempre cheio de esperança,

Vera Freire.

* * *

Pois é, Vera, eu também às vezes me sinto assim...

Quanto ao livro,  estou achando que nem o personagem nem o autor tem amor pra dar!

Agora, eu gostei muito de Indignação, embora também esse livro tenha um gosto amargo, tipo, por mais que você faça,  não dá pra fugir às armadilhas que o destino lhe reserva. Que as escolhas mais simples podem trazer consequências funestas.  Mas é um livro muito mais dinâmico, sólido e instigante, com algumas passagens muito bonitas. Pra mim foi um livro marcante, só que o jeitinho deprê estava lá também. Por que você não pega esse pra ler?  Eu o tenho aqui, pra te emprestar, se você quiser. Me avise.

Beijos e bom domingo,

Rose

* * *

Elô e demais amigos e amigas,

Fico aqui só lendo o que vocês falam a respeitos das leituras e de tanto falarem fico curiosa também. Eu gosto das coisas contraditórias e daquelas que as pessoas dizem não encontrar nada de bom. Acho que esse livro deve ser sucesso justamente pelos fatos que vocês relatam porque o lado funesto da vida ninguém gosta, mas precisamos conhecer. 

Abraços!

Sonia Salim 

* * *

Rose, concordo com você,muitas vezes penso que o desencanto é meu, de minha leitura. Li o livro até o fim, embora o excesso de detalhes médicos estivesse me desanimando. Na segunda metade ,penso que a narrativa ganha um pouco de força, mas não o suficiente para que eu gostasse. Este "homem comum "é muito amargo, não tem amor para dar, até a própria filha só era tão querida na medida em que o servia.  Foi o primeiro livro que li dele, com certeza vou ler outros , procurando encontrar motivos para que seja um autor tão admirado.


Vera Leite


* * *

Rose e grupo,

Peguei o livro pra ler e simplesmente achei que para o bem da minha saúde mental, deveria abandonar a leitura, pelo menos por agora.

Venho de um país onde as pessoas, que já eram derrotistas e melancólicas, depois da crise, estão cada vez mais mal dispostas, mais mal humoradas, mais pra baixo, mais negativas e totalmente desiludidas. 

Sim, minha gente, já estou no Rio, pois terminei as disciplinas obrigatórias do Doutorado e agora vou me dedicar a escrita de vários trabalhos que ainda estão pendentes.

Depois de mais esse "estágio" em Portugal, país que os sabem como eu amo, que tem uma beleza rara, um povo educadíssimo, mas como anda mais melancólico do que já é por natureza, não suportei encarar uma leitura tão "derrotista". 
Seria demais pra este momento, mas prometo ao grupo que não me furtarei a retomar, pois acho que sempre vale a pena, até porque eu adorei Indignação.

Vocês não fazem ideia do quanto a crise afetou o estado de espírito do povo português. Muito diferente do que vi em Espanha e em outros países que enfrentam as mesmas medidas impostas pela Troika. 

O estado escatológico da vida e do estar no mundo, parece com o vírus da gripe A. É como se a gente pegasse no ar, sem perceber! Quando menos esperamos, já estamos igualmente contaminados de tristes e com taxas baixíssimas de alegria, de paixão e de disposição para se rebelar...

Sendo assim, o derrotismo tão bem apontado pela Rose, definitivamente não caiu nada bem neste meu momento.

Beijinhos a todos!

Lilian

* * *

Oi, Rose, Vera, Antônio, Rita e outros amigos:

Tive a mesma sensação que vocês ao ler o livro, mas depois eu senti uma compaixão, uma tentativa de compreender esse homem!  ESSE ERA O "HOMEM INCOMUM"!

Observem como é difícil envelhecer doente. Muito doente.

Ele foi uma criatura amada pelos pais, pelo irmão, mas tinha uma personalidade distinta!!!

Era uma criatura existencialista, não sei se ateu, como disse o Antônio! Claro, todos vocês têm razão, ele nos deprime.

DEPRIME POR QUE FALA A “VERDADE”: Ele não aceita a velhice, muito menos com doença! E quem não se deprimiria?????

Eu concordo plenamente com ele, envelhecer é insuportável. NÃO TEM ESSE DISCURSO, QUE FICAMOS MAIS CALMOS, ACEITAMOS MELHOR O DESTINO, E MUITO MENOS TEMOS MAIS DIGNIDADE!

Veja, a Rose ressaltou bem, ele já pagou um preço muito alto: Fez uma profissão que apesar do sucesso, seu prazer foi para o ralo! SÓ AÍ ELE PERDEU MEIA VIDA.

Acho que ele amava as mulheres sim, mas não acertou, era afoito!!! Encantava-se e depois ia conhecer! Até a mãe dos filhos deles.

Ele foi um homem que NÃO SE PERDOOU! Ele tinha uma culpa imensa sobre as suas costas. E pensava demais. É natural pensar muito quando se aposenta, e não gosta de fazer outras atividades. COMO SER OTIMISTA VENDO SEUS AMIGOS PIFANDO TAMBÉM???

Eu o compreendi muito em não querer conviver com as pessoas da idade dele. SUA TENTATIVA FOI FRACASSADA, POIS ESSAS PESSOAS VIVIAM O MESMO!

Essa é a grande furada de convivermos como se fossemos condenado ao mesmo destino!

Entendo também que ele era um sujeito sentimental, mas  frágil, muito frágil para com a dor alheia. A cena dele cuidando da senhora que tinha uma terrível dor nas costas, e levou-a para o quarto...................... Ele a compreende totalmente, e é terrivelmente lindo o texto!

Antônio, eu acho que tanto faz, no caso dele, ser religioso, ateu, ou qualquer outra coisa!

De fato, ele não apela para o sobrenatural, ele já tinha muitas questões sobrenaturais, como a eminência da morte, a dor de não ter mais sua juventude cortada pela doença e culpas. PARA UM ateu ELE ERA CULPADO DEMAIS!!!!!!!!!!

Aqueles filhos chatos, a ex, uma chata de galocha, que não aceita que o amor acaba, o deixaram de amá-lo. O QUE SE PODE ESPERAR DISSO???

Claro, ele não era um brigão, era mais recluso, e fazia uma dicotomia entre passado e presente. CANSOU CEDO PARA MUDAR A MENTALIDADE DOS FILHOS EGOÍSTAS.

Foi feliz, brevemente no 2º. Casamento, e teve uma grande aliada, sua filha, querida que o amava muito!!!

Mas para um homem, não basta o amor dos filhos, ele exige sua virilidade (isso é difícil nos homens), e sem isso, eles não se sentem HOMENS.

Por isso ele pirou e casou com a modelo.................... Outro desastre!

Ainda por cima tinha um irmão modelo, outra canoa furada!!!!!!!!!!!! Acabou não curtindo o irmão.

O QUE ACHO AMIGOS, É QUE NÃO SUPORTAMOS NOS VER NESSE LUGAR, COM A MORTE IMORAL, POR PERTO, UM GRANDE DESEJO DE SER AMADO E AMAR UMA MULHER (NEM A PINTURA SUBSTITUIU ISSO).

Ele era muito só, não dividia com ninguém, e tinha o consolo da filha amada (muito diferente de ter um amor), de ter sua virilidade de volta.

Ficamos chocados, pois ele fala da velhice de um sujeito de 60 anos , que lutou 15! O MEDO É O MEDO DA MORTE! TEMOS MEDO TAMBÉM, DE NÃO SERMOS INDEPENDENTE COMO ELE, IA SOZINHO PARA FAZER UM STENT , COMO SE FOSSE FAZER A BARBA.

A VERDADE INCOMODA MUITO, EU TAMBÉM FIQUEI TRISTE, MAS NÃO ACHEI O AUTOR DEPRÊ, O PERSONAGEM, SIM, E COM TODA RAZÃO!

Eu pessoalmente acho o envelhecimento, uma merda! Com saúde, nós procuramos reinventar uma vida, etc.................. MAS NADA, NADA MESMO, DE SERMOS DESEJADOS, ATÉ OS 30 ANOS, MESMO SEM MATURIDADE.

Talvez isso seja diferente para as mulheres, não sei!!!!!!!!!! Ou seja diferente para cada pessoa!!!!!!!!!!!

Beijos

Fátima

* * *

Muitíssimo interessante a análise da Fátima.

Eu tb pensei nessas possibilidades, mas não continuei a leitura pelas razões que já contei, mas agora depois das ponderações tão sensíveis da Fátima e depois de ter assistido o filme  "Aqui é o meu lugar", protagonizado por Sean Penn, penso cada vez mais que vale a pena insistir na leitura e conhecer de perto esse "homem incomum".


Beijinhos, 


Lilian

* * *

Gostei muito do livro e do comentário de Fátima. Só não concordo em achá-lo HOMEM INCOMUM. Tive a oportunidade de conviver com alguns homens: parentes, amigos, colegas, vizinhos etc. que, na situação do personagem, tiveram comportamento bem semelhante ao dele. Há mais homens assim do que se pensa. E mulher também. Ele é, portanto, um HOMEM COMUM. descrito de forma brilhante por  Philip Roth.

Abraços para todos.

Elenir

* * *

Obrigada por terem lido!

Elenir, ele era diferente, incomum, pois no fundo, ele queria o osso, o durável, e não mais o eterno. Essa metáfora, eu senti assim! 

Tanto que homens como ele, correm para casa da ex, ou dos filhos, ele nem se despediu da filha, pois restava alguma esperança!

Ai, Elenir, uma opção, que deveria ser feita pelos médicos, ele sai dessa vida, e de forma terrível, pois nessa hora, os médicos que estavam de brincadeira, passam a falar como se o sujeito não escutasse. É uma barulhada incrível, e o futuro morto, escuta!!!!!!!!!

Esse livro faz uma crítica especialíssima no serviço médico, tal como o nosso. TRABALHO DE MASSA!!!!!!

Evidente que um homem com os problemas dele, possivelmente para fazer anestesia geral, teria que ter um aparato melhor, e um pré - exame, especial. 

ELE POUPAVA SUA AMADA FILHA, E ACABOU NÃO MORANDO COM ELA!

Não era um tarado qq, a cena dele olhando para moça da praia, embevecido, deixou que ela ficasse cismada. Foi até ele, e no susto, ele a assustou! ELE NÃO ERA UM PAQUERADOR QUALQUER. INCOMUM!!

MAS ELE MOSTRA QUE O SERVIÇO PÚBLICO E O PRIVADO TAMBÉM os TRATAM COMO SE FOSSEM RÉPLICAS, E SEM PERSONALIDADE NENHUMA. Achei uma crítica médica, sem dizer uma palavra de revolta. Por isso mesmo, não fiquei enjoada com os termos técnicos, isso mostra que o personagem, doente, não era tolo!

Elenir, ele era frágil, mas sensível, afoito, com personalidade própria!!!!!!!!! Portanto, INCOMUM!  Não acha???

Bem mais fácil foi ler INDIGNAÇÃO, um livro excelente do autor, mas falar da juventude, ah......... Quem não tem lembranças boas, raras, ruins pra defender com unhas e dentes?????

bjs
Fátima

* * *

Pessoal,

        A escrita de Roth é seca, e a abordagem  é crua. Tanto em Indignação, quanto aqui. E isso choca muito. O livro desce arranhando a garganta, mas não sinto o gosto amargo.


       Não é o velho amargurado e frustrado de Leite Derramado, que fez de si o que não soube. "Everyman" é bem sucedido.  Teve uma infância feliz, bons pais, uma carreira bem sucedida, filhos, amores.  A problemática de seus relacionamentos estão vinculados a potência sexual: fator instintivo e de perpetuação da vida (de sua própria concretude: "Só lhe ocorreu de passagem a ideia de que talvez fosse uma ilusão imaginar, aos cinquenta anos de idade, ser possível encontrar um buraco que substituísse tudo o mais").



       Não o sinto deprimido, mas angustiado.  A culpa, a  inveja da saúde do irmão,  a pintura,  a mocinha na praia,  são sintomas  da angustiante sensação de aniquilamento. "A velhice é um massacre." Eu complementaria:  A velhice é o massacre do corpo deste  personagem  cuja vida é o corpo. Exclusivamente o corpo.  A concretude da matéria. "Não  tinha a impressão de que estava tentando fazer que uma ficção se tornasse a verdade. Aquilo era a verdade, a intensidade da ligação com aqueles ossos". Não há metafísica.    Roth com maestria mostra o processo de aniquilamento desse corpo, da matéria de "Everyman" . Mas há redenção no deixar-se ir. " Bom. Você viveu." respondeu a mãe e o pai disse: "Olhe para trás e expie as coisas que vc pode expiar e aproveite o que lhe resta."


    Gosto do título em inglês. Não o traduziria por Homem Comum. O  título em inglês abrange a todos os homens, sem distinção de gênero. Dá a ideia de humanidade.  O fim de todo homem (everyman) é o aniquilamento da matéria. Solitariamente. É possível um conforto:  a mão solidária, mas ela não aplaca a angustia do fim.

     Achei interessante os títulos dos livros  do menino, que ele novamente menciona no final:   Família Robinson, Kim e A Ilha do Tesouro: as aventuras de náufragos que fazem de tudo para sobreviverem,  as aventuras de um órfão que se torna discípulo de um Lama, e a busca de um tesouro escondido em uma ilha. Todos jornadas.

    Gostei do livro!

    Adriana Marins



* * *

Parabens, Lílian, pela clareza simples, pela inteligente defesa de sua opinião leitora.  Ler sua mensagem abaixo me emocionou. De verdade. Obrigada.
Cyana 

* * *


Oi,  Fátima, Lília, Elenir, Rita, Vera, Eloisa, todo mundo !

Gostei dos comentários da Fátima, com uma abordagem mais humanista, mais compreensiva, mais solidária.

Agora, eu continuo achando que este autor, tão celebrado, e com livros da maior qualidade, é meio deprê. 

Certamente não conheço tanto de sua obra pra chegar a essa conclusão, mas o fato é que, neste livro, ele mata um senhor que nunca conseguiu, ou nunca quis, ou nunca se preocupou em  tomar as rédeas de sua vida.  Foi vivendo o que foi aparecendo e fazendo escolhas pouco profundas, sem se dedicar apaixonadamente a nada.  Na realidade, acho que pior do que morrer foi viver como viveu.

Em Indignação ele mata, aos 18 anos, um belo jovem que tentava fazer o oposto, ou seja, tomar as rédeas de sua vida, fugindo de um destino provável. O jovem morre, a meu ver,  pelo excesso de paixão. Isso me leva a crer que, pra ele, o homem não tem saída. “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.  Uma coisa meio niilista, que faz com que qualquer busca do homem o leve ao mesmo trágico destino.  Acho muito reducionista e muito deprê essa abordagem, muito deprê...

Beijos,
Rose 

* * *

Rose, querida, sua análise , quanto a posição dele de não tomar as rédeas de sua vida, eu achei perfeita. Concordo que viver para ele foi pior que morrer, quem sabe?

Bjs
Fátima

* * *

Minhas queridas "Clic"anas que teceram inúmeros comentários sobre o HOMEM COMUM.....

O QUE SIGNIFICA "TOMAR AS RÉDEAS DA VIDA?"  quantos de nós de fato estivemos ( ou estamos) com as rédeas de nossas vidas em nossas mãos?
enquanto crianças, adolescentes e jovens temos inúmeros sonhos....projetos...idéias e ideais....mas como disse sábiamente Chico Buarque em Roda Viva   ....a gente quer ter voz ativa no nosso destino mandar mais eis que chega Roda Viva e carrega o destino prá lá......
Não querendo ser pessimista nem conformista nem determinista creio que "somos o que podemos ser" .
Comecei a ler o livro neste fim de semana e sinceramene estou adorando a narrativa. Ouso destacar frases poéticas dentro do texto:

-   Depois retomou o fio da meada, voltando o olhar para a ampla e ensolarada janela da infância.    pag13

-   "Não gosto de ter que dizer essas coisas,e isso na verdade não é da mi nha conta,mas todas as vezes que ela vem lhe fazer uma visita, eu fico de olho.Ela é mais uma ausência que uma presença.........  pag.38

Cada um de nós é uma experiência única.Seja na ficção ou na realidade. "eu sou eu e minha circunstância". Ortega Y Gasset  

abraços da Joana

* * *


Meninas,


  Adoro literatura!  A mesma historia interagindo com cada um de nós  de formas tão diferentes. Concordo com Rose, W. Allen é  mais divertido.  Roth é cruel. Cruel, pois desconstitui um cenário onde nós, homens comuns,  construimos as ilusões que nos sustentam. A família, o trabalho, os amores, a saúde são pilares que ele vai destroçando. 

     O que chamou minha atençao é que o personagem não bebia, não fumava, não tinha histórico familiar,  fazia exercícios físicos regularmente ( nataçao, considerado o mais completo exercício aerobico e menos lesivo ao corpo e que continuou a praticar depois das safenas), ou seja, a doença foi uma circunstância que ele não contribuiu, e que não teve absolutamente nenhum controle! E no entanto ele não desistiu ( conforme a mulher que ficou casada a vida inteira e se suicidou): foram sete operações! Ele estava arraigado na vida, lutava para nela permanecer, mesmo quando suas ilusões iam se desmoronando.

     Quantos de nós não vivemos a vida (escravizados pela jornada de trabalho que nos garantem a sobrevivência, e que dela não desgostamos!) e dizemos que vamos morar na praia quando nos aposentar, escrever um livro, tornar-se pintor, fazer caridade, etc, dando significado a nossa existência? Roth cruelmente nos mostra  que essas coisas fazem o tempo passar, mas  não são suficientes para apaziguar a angústia da morte.

       Eu  só consideraria este homem incomum se ele conseguisse controlar a Roda da Vida!
O homem comum comete erros, cujos desdobramentos saem de sua área de controle, e com os quais terá que conviver enquanto viver. O homem comum comete os pecados capitais: gula, avareza, luxuria, vaidade, ira, inveja, preguiça. Nem os Deuses, nem os heróis e muito menos o homem comum conseguem deixar de ser devorado pelo Titã Chronos.

       Eis a trágedia vida! Eis a crueldade de Roth!

Adriana

* * *

“Homem comum” é o livro escolhido do mês de agosto no Clube de Leitura Icaraí

O romance “Homem comum”, do norte-americano Philip Roth, será o próximo livro a ser debatido no Clube de Leitura Icaraí, no dia 3 de agosto, às 19h. O encontro, que tem entrada franca e é promovido pela Editora da UFF (Eduff), é realizado na primeira sexta-feira de cada mês, na Livraria Icaraí, Rua Miguel de Frias, 9, Icaraí, Niterói.
O livro, ganhador do Pen/Faulker 2007, é centrado na luta de um homem contra a sua mortalidade. Guiado por uma narrativa intimista, o leitor acompanha a trajetória do protagonista da infância até a velhice, quando ele se aflige ao perceber a deterioração de seus contemporâneos e dele mesmo. (fonte)



* * *



"Here where men sit and hear each other groan; 
Where palsy shakes a few, sad, last grey hairs, 
Where youth grows pale, and spectre-thin, and dies; 
Where but to think is to be full of sorrow."

(Keats)


Philip Roth

“Old age isn’t a battle, it’s a massacre.”


* * *


Oi Clube,

Estou quase acabando de ler Homem Comum de Philip Roth... Muito bom... Não consigo parar de ler! O homem em todas as suas acepções. Freud diria a mesma coisa: vaidade, inveja, raiva, libido sexual...
Abs,
Fred

* * *

Perdi meu Homem Comum -
penso, esqueci na cadeira,
agora... estou sem nenhum...
e mais... sem eira nem beira. 
(I, 15/07/2012)

É perda bem incomum
esquecer-se a mulher
no caso, do Homem Comum
– se fosse um homem qualquer...
[E, 15/07/2012]

Eita! Dessa eu não sabia
desse lado trovador
meu "Homem Comum" diria:
"Tem charme o "Espreitador"!
(I, 15/07/2012)

O homem comum de cá
esqueceu-se, de repente
espreitando em seu trovar
– Eita, trovadoramente!
[E, 15/07/2012]

Ilnéa, amigos,
Ótimas e criativas trovas,
mas a quem chamou espreitador, 
é irmão
(Elô)

Desculpem, eu não sabia... 
pensei que fosse "alter ego",
trova com categoria
e tem "fair play", eu não nego.
(I, 17/07/2012)

Não há do que desculpar-se
o facebook é que é cego
pois faz de qualquer disfarce
ou duplo, um alter-ego
[E, 17/07/2012]


* * *


Um comentário:

  1. MORTE

    Nem temor nem esperança assistem
    Ao animal agonizante;
    O homem que seu fim aguarda
    Tudo teme e espera;
    Muitas vezes morreu,
    Muitas vezes de novo se ergueu.
    Um grande homem em sua altivez
    Ao enfrentar assassinos
    Com desdém julga
    A falta de alento;
    Ele conhece a morte até ao fundo —
    O homem criou a morte.

    (tradução: José Agostinho Baptista)

    Poema de william Butle Yeats que pode ter inspirado o romance do mês.

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