CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

12 de junho de 2012

O delírio do verbo


Diz Manoel de Barros que “O delírio do verbo estava no começo, lá, Onde a criança diz: / eu escuto a cor dos passarinhos.” O Verbo delira porque a criança muda o sentido do verbo. “A criança não sabe que o verbo escutar não / Funciona para cor, mas para som.” Criança tem disso, às vezes cria poesia na confusão dos sentidos que ainda não é capaz de distinguir e no seu olhar de ver ainda um mundo encantado. Aí aparece um adulto sabichão e lhe diz: “Não, pequenino (ou pequenina), está errado, o certo é vejo a cor dos passarinhos”, banalizando a frase e matando a poesia. É mais ou menos parecido com a queixa do poeta no “Livro das Ignorãnças”:

“O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa  / era a imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás de casa. / Passou um homem depois e disse: Essa volta / que o rio faz por trás de sua casa se chama / enseada. / Não era mais a imagem de uma cobra de vidro / que fazia uma volta / atrás de casa. / Era uma enseada. / Acho que o nome empobreceu a imagem.”

O ofício do poeta, isto creio eu, impulsiona-o a buscar na palavra o significado para além do senso comum. “ O sentido normal das palavras não faz bem ao poema. Nomear algo com o óbvio nome a que é identificado mata a magia da imagem poética ou o modo de ver o mundo para além da realidade mesma das coisas. Porque não pode a criança dizer que “o passarinho bebe o ar para poder voar”, como dia desses ouvi da boca de um pequenino? Um dia essa criança há de descobrir que ar não se bebe e que passarinho voa por outros motivos, mas devíamos ajudá-la a preservar este modo poético de ver com outros olhos e com outros sentidos o voo dos pássaros.  Que ela entenda o motivo científico para o voo, mas sem perder a ternura poética do olhar, jamais. E isto serve para outras quaisquer realidades.

Mas por que falo de crianças, palavras e principalmente poesia se não sou poeta? Porque quando criança eu roubava os cadernos da minha irmã mais velha. Mas creiam-me, era por amor à palavra. Eu os roubava porque queria passar folha por folha para ver as linhas escritas e me enamorar daquelas palavras desenhados pela mão da minha irmã. Eu sabia que naquelas linhas certinhas, as palavras que formavam aqueles textos queriam dizer alguma coisa. Imaginava que histórias podiam conter ali, e desejava ardentemente aprender a ler e a escrever. Um dia uma idéia me veio à cabeça. Nem desconfiava de que seria uma idéia perigosa, capaz de despertar os instintos mais primitivos da minha irmã e colocar em risco minha integridade física. No verso das folhas que só tinham a frente escrita, seguindo as sombras das letras, eu desenhava uma a uma cada palavra, cada frase, o texto inteiro. Escrevia antes de aprender a escrever, mas não imaginava que escrevia ao contrário, invertendo as palavras, as frases o texto todo. Desdizendo o que estava dito, desescrevendo o que estava escrito. Fazia isto imaginando que escrevia mesmo, e inventava mil histórias escritas ao contrário. Essa paixão primitiva pela palavra (eu devia contar nove ou dez anos de idade) deve ter sido a causa do meu aprendizado da palavra fora da escola. Quando finalmente ingressei no espaço formal do aprendizado eu já tinha quase doze anos. Já sabia ler e escrever como nenhum outro alfabetizado. Mas aconteceu algo ruim, a escola acabou sendo o espaço do sepultamento desse amor a palavra, da liberdade de imaginar o que elas podem dizer, ou desdizer, e da vontade de ser um contador de histórias, de inventar mil aventuras nas linhas retas do caderno. Na escola, a palavra havia se tornado coisa séria demais e já não era mais permitido delirar o verbo e brincar com as palavras, porque a senhora gramática não permitia tal coisa. A gramática tem seu valor e deve ser ensinada, mas não se pode engessar a criança no formalismo da língua. Imagino quantos poetas e contadores de histórias não são assassinados já na infância, ao entrar para a escola. A escola precisa dar essa liberdade à criança, a de delirar o verbo e continuar a ver o mundo colorido da palavra com o olhar do poeta, que consegue ver o que ninguém vê, como bem dito por Ulisses Tavares: “Olha de novo: não existem brancos, não existem amarelos, não existem negros: somos todos arco-íris.”

Agora, mais de duas décadas passadas, o Clube de Leitura Icaraí me despertou novamente o prazer da palavra, não somente como leitor. Tenho pouco a pouco procurado o caminho de volta ao começo, para ser criança novamente e reaprender a delirar os verbos.  

Um grande abraço,
Antonio R

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