CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

2 de julho de 2012

Casta Susana


No tempo em que os judeus viviam em cativeiro na Babilónia, Joaquim, um abastado proprietário era casado com Susana, uma bela e virtuosa mulher. Viviam numa casa grande com um pomar junto ao rio. Costumavam receber diariamente em sua casa muitos judeus ilustres. Dois anciãos que haviam sido recentemente eleitos juízes, eram visita assídua da casa e cobiçavam secretamente a esposa do dono da casa. Susana ― em hebraico quer dizer Lírio, símbolo da pureza ― ignorava essas intenções. 

Um dia, pela força do calor, e quando todos se haviam recolhido para a sesta, decidiu tomar um banho na ribeira que passava no pomar. Mandou fechar os portões da propriedade e pediu às servas que fossem a casa buscar óleos e unguentos. Mas os anciãos tinham ficado dentro do jardim, e espreitavam-na escondidos no arvoredo. Quando a sentiram sozinha abordaram-na exigindo que se lhes entregasse logo ali. Como ela recusasse, os juízes ameaçaram-na de contar ao povo que ela cometera adultério. Susana desatou em grande alarido e invocou a ajuda a Deus. Quando os criados acudiram, os perversos anciãos acusaram-na de atraiçoar seu marido com um jovem. Naquele tempo a lei condenava à morte a mulher casada que cometesse adultério e dessa forma começou a ser julgada pelo tribunal. Indignado com toda a injustiça que estava a acontecer, um jovem chamado Daniel resolveu intervir em ajuda de Susana. No tribunal pediu que os acusadores fossem interrogados em separado. Como os detalhes de cada um fossem discordantes, ficou provado que estavam a mentir e que Susana estava inocente. Foi absolvida e os infames juízes, por sua vez, condenados à morte. (Resumo de Daniel, 13, 1-64) (extraído do sítio de Nuno Barreto)



Infâmia



"Atento, fui aprendendo que todo relato tem interpretações. Mais de uma. Nenhuma é a única correta. Mas muitas são apenas falsas, mentirosas. Produtos de fracas mentes. Desonestas. Servem ao mal. Podem até ser fruto de intelectos capazes, que escolhem se aproveitar apenas de alguns fragmentos dessas capacidades e bloquear certos cuidados minuciosos que o bem exige - facilmente contornáveis pelos que optam por ignorar tais escrúpulos no caminho, mero cascalho moral, reles areia descartável. Há quem prefira agir assim: velar a luz da consciência, ignorar minúcias dispersivas e elaborar raciocínios em mais sombrios territórios mentais, de modo a chegar a algum julgamento conclusivo." (Infâmia: Ana Maria Machado)



"Daí, pois, como já se disse, exigir a primeira leitura paciência, fundada em certeza de que, na segunda, muita coisa, ou tudo, se entenderá sob luz inteiramente outra." (Schopenhauer)


"A primeira providência do espírito é distinguir o verdadeiro do falso." (O Mito de Sísifo: Albert Camus)


"A cada dia que passa, mais as palavras que escuto me impressionam, por serem cada vez menos uma descrição do que as coisas realmente são." (A Marca Humana: Philip Roth)


"Também os leitores devem assumir a própria responsabilidade." (Umberto Eco, "Aspas e Transparência", em Siete Anni di desiderio)

"Uma infâmia, uma infâmia, essa afirmação de coisas improvadas!" (O Ateneu: Raul Pompéia)


Uma infâmia atribuir a nós termos dito coisas que não dissemos, feito coisas que não fizemos. Uma infâmia distorcer o contexto do que escrevemos. Devemos ter muito cuidado ao citarmos terceiros em nossos discursos, para não mudar deslealmente o significado do que foi dito por eles. 

Um comentário:

  1. Ah, se sempre pudéssemos provar as infâmias, quão melhor seria a vida dos justos.

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