CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

15 de fevereiro de 2012

< ENTRE LEITURAS >




Lembranças de beira mar: Carlos Rosa Moreira

Patancha sabia limpar baiacu. Pelo menos era isso que se contava. Vivia no porão da casa onde eu passava as férias de julho. Não era empregado da casa, morava ali porque deixavam. Em troca ele limpava o quintal, colhia frutas, às vezes trazia um peixe. Era um sujeito amarfanhado, sujo e velho, tinha a pele queimada pelo sol e cabelos encaracolados de uma cor indefinível. Andava com as roupas usadas que o pessoal da casa lhe dava.

Um dia me disseram que ele limpava e comia baiacus. Eu era muito criança e sabia pouca coisa de peixes e mar. Para mim, aquilo era espantoso, pois acreditava que comer baiacu seria sentença de morte. Certa vez, ele apareceu com um baiacu arara. Disse que ia limpá-lo para comer. Eu fiquei olhando e o vi cortar o bicho, arrancar o couro e abrir suas entranhas. Tirou lá de dentro uma bolinha mole e escura.

─ Isto aqui é o fel, se estourar estraga a carne e faz mal ─ disse ele.

Depois me convidou para o seu almoço. Eu já havia almoçado, mas fiquei curioso, rodei, caminhei na praia e não resisti à tentação. Voltei a casa e o encontrei ao lado de uma lata sobre duas pedras com fogo embaixo. Ele estava encostado a uma parede, coberto por formigas tanajuras. Pegava uma formiga sem machucá-la, conversava com ela e a colocava de novo na roupa. As formigas abriam um grande ferrão negro e, se o picassem, ele as jogava na lata onde borbulhava a carne do baiacu. E dizia assim: ─ São as minhas amiguinhas, minhas companheirinhas. Elas vão almoçar também.

Olhei aquilo e olhei a carne de baiacu cozinhando na lata; resolvi voltar a caminhar na praia. Sei que Patancha ainda viveu por muitos anos comendo carne de baiacu, e morreu de morte morrida.


4 comentários:

  1. Tão legal quando a gente se depara com tipos assim na vida, fora do lugar comum. A vida pode ser bem mais do que morna se soubermos acalentar os corações. Adoro seus textos, Carlos.

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  2. Carlos Rosa, dia desses fui a um restaurante em Barra de São João (O CASARÃO)e comi um "baiacu" delicioso. A carne é branquinha, de uma consistência mais firme que os demais peixes, lembra até a consistência de um filé de peito de frango. E não morri. Mas antes conversei muito com o garçon sobre se podia mesmo comer o baiacu de lá. Após algum tempo ele me convenceu de que eu podia confiar no limpador do peixe (rs). Deve pertencer à família do seu personagem. Aí foi só me deliciar com aquele peixe. Seu conto é curto mas como sempre tão bom de se ler. Sou sua fã de carteirinha, Carlos. Eu, como Rita Magnago, adoro seus textos, viu? Bjs. Angela Ellias.

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  3. Moral da história, ninguém morre de comer baiacu com formiga rsrs mas um homem que joga suas amiguinhas na água fervente, porque o picaram, pode ser inesquecível.
    Interessante certos tipos que povoam nossas lembranças. Seus textos são carregados de vida , e , portanto , do inusitado. Parabéns da modesta admiradora.
    Elô

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  4. Parabéns, Carlos. A maestria de sempre ao contar uma história. Seu lugar é na ABL... (embora haja algumas "companhias" lá que Deus me livre...!!!).
    Forte abraço!

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