CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

22 de fevereiro de 2012

Modesta Sugestão: Carlos Rosa Moreira



Últimos anos dos sessenta, eu tinha cerca de doze anos. Passava na Globo a novela " A rainha louca". Mesmo sendo um garoto ativo e desassossegado, eu parava tudo para ver a novela. E por causa da novela tive o primeiro ímpeto de escrever alguma coisa, um conto! A novela era tão louca quanto a rainha que lhe dava o título. Passava-se no México, na segunda metade do século XIX, durante as lutas pela independência daquele país. Tinha, portanto, um fundo histórico real. Contava a triste e verdadeira aventura de Maximiliano de Habsburg e sua jovem esposa Charlotte, princesa da Bélgica, ambos convencidos por Napoleão III a embarcar na canoa furada de serem imperador e imperatriz no explosivo país de Benito Juarez. O jovem e elegante ator Rubens de Falco interpretava Maximiliano e a bela e talentosa Nathalia Timberg, Charlotte (Carlota). Havia duelos de espadachins, ataques de índios, sociedades secretas e a incrível história do índio ignorante, rústico peão de fazenda, que aproveitou o desmaio da sinhazinha que o desprezava, e pela qual era apaixonado, para comer a sinhazinha. Comer não no sentido antropofágico, como era costume de muitos índios, mas no sentido amoroso. Depois o índio foi levado à Europa, educou-se e tornou-se garboso cavalheiro que acabou por conquistar o coração da sinhazinha que, outrora, o desprezava. Ela, então, o apresenta ao filho concebido naquela noite do desmaio (antigamente, era muito comum mulher desmaiar). 

  Pois é, mas o que mais chamava a minha atenção era a sociedade secreta, da qual fazia parte um misterioso personagem interpretado pelo ator Paulo Gracindo. Na trama, a tal sociedade tinha relação com o sinistríssimo "Poço de Fontainebleu", de onde vinham, no escuro das noites, pavorosos gritos.

  Eu achava aquilo uma maravilha. Então resolvi escrever uma história. E na minha história haveria uma escura caverna de onde também sairiam gritos terríveis; e a caverna teria um nome, seria a "Caverna de Fontainebleu".  Como podem perceber, eu era um garoto muito original e cheio de imaginação.

  Decidi que precisava de um local reservado para escrever a minha história. O local escolhido foi o quarto da empregada. Enquanto a empregada cozinhava, eu escrevia. Eu gostava do quarto com a empregada dentro, especialmente quando ela terminava o banho e trancava a porta para se enxugar. Era uma rotunda empregada que ocupava todo o espaço do buraco da fechadura. Mas, para escrever, era preciso ter concentração.

  Acabei o conto e fiquei orgulhoso com o rascunho nas mãos. Resolvi submetê-lo ao crivo literário da minha avó, uma contumaz seguidora de novelas e severa professora primária do interior na década de vinte do século passado. Minha avó implicou com uma separação de sílabas. Tentei explicar que isso não era importante no momento, eu gostaria de saber a opinião sobre o teor literário do texto. Naquela idade eu não sabia explicar isso, não sabia dizer "teor literário", e o meu conto ganhou fama de mal escrito. Além disso, fui instado a estudar mais Português.

  Hoje, a experiência daqueles distantes anos mostra-se atualíssima. E contei essa xaropada toda, apenas para sugerir àqueles que tenham textos guardados que jamais os submetam a pessoas que não sejam intimamente ligadas e apaixonadas por Literatura. Esqueça aquele magistrado "muito culto"; esqueça o amigo inteligente e viajado, leitor de best-sellers; esqueça o profissional liberal bem sucedido e amigo. Ter cultura e ser bem sucedido não é aval para examinar um texto. Lembre-se de que todos são leitores e de que seu texto pode ser amado ou detestado, como acontece com qualquer escritor. E saiba que a grande maioria das pessoas, mesmo as chamadas cultas, não estão preparadas para perceber a arte por si mesmas. É preciso que algo ou alguém desperte nelas a imaginação. Todos caminham num fluxo, ocupados e acostumados a se ocuparem com os problemas da vida mundana. É preciso parar, pensar, perceber, imaginar, sentir. E isso requer um pouco de tempo de cada um. Não só tempo cronológico, mas tempo para sair do fluxo a que foi acostumado a viver, um certo tempo psicológico, que todo ser humano deve ter a obrigação de dar a si. É sempre possível ter tempo, mas depende da imaginação. E ter imaginação pode cansar, parece mais fácil permanecer no fluxo.

  Portanto, para examinar seu texto, procure alguém envolvido com Literatura, com a arte; alguém que estude, alguém que ame a língua, que fale com carinho nos livros, mesmo daqueles de que não gostou. Alguém sensível, sincero e generoso, amante da Lingua Portuguesa e leitor voraz. Essas qualidades são imprescindíveis para formar um leitor mais refinado que poderá emitir um parecer com argumentos interessantes. A revisão gramatical é mais fácil, um bom professor resolve.


5 comentários:

  1. Carlos, adorei seu texto.Sinceramente, e é muito bom poder dizer isso: adorei! Percebe-se nele o humor , o carinho por um menino que descobre a escrita e a sua imaginação , que felizmente persistiu , persiste até os dias de hoje. Que o menino se mantenha assim: sereno, confiante, humano. Agradeço por permitir a exposição generosa, aqui, no Nosso Clube de Leitura Iacaraí, de seus conselhos.
    Abraços,
    Elô

    ResponderExcluir
  2. Elô, muito obrigado mesmo pelo generoso comentário. Mas, por favor, não são conselhos, são apenas modestíssimas sugestões de quem aprendeu alguma coisa. Sempre há escritores ocultos entre leitores, gente com textos guardados numa gaveta, muitas vezes em dúvida se são interessantes ou não. Como tudo pode ser motivo para uma croniquinha, aproveitei e aí está minha humilde opinião.
    Um grande abraço. Carlos Rosa Moreira.

    ResponderExcluir
  3. Carlos, que bons conselhos, obrigada! E que memória prodigiosa você tem. Se lembrar de tantos detalhes de uma novela dos anos 60. Sua crônica é leve e gostosa. Adorei a parte que você descreve como preferia o quarto da empregada. Os homens sempre me parecem poder ter mais liberdade para falar de desejos, até os infantis ou longínquos, do que nós, mas isso já é outra crônica, rsrsrs.

    ResponderExcluir
  4. Valeu Carlos! Excelente "crônica-conselho"! (rsrsrs...) Falando sério, muito bom ouvir esse tipo de sugestão, super válida para tantos de nós. Sei que lá no CLIc há outras pessoas que escrevem, mas são tímidas, escondem-se. Uma outra sugestão interessante, acredito, é a pessoa não se levar a sério demais... Tem que relaxar para poder ouvir elogios e críticas, etc....

    ResponderExcluir
  5. Curti muito a crônica, amigo Carlos. Bateu com uma poesia que fiz de título: "Não se fabricam poetas". Veja lá em http://www.recantodasletras.com.br/poesiasdeamor/3529216. Enorme abraço do parceiros de letras Luiz R.Bodstein.

    ResponderExcluir

Prezado leitor, em função da publicação de spams no campo comentários, fomos obrigados a moderá-los. Seu comentário estará visível assim que pudermos lê-lo. Agradecemos a compreensão.