CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

31 de janeiro de 2009

A Filha do Escritor



"Nós os malucos, vamos lutar
Pra nesse estado continuar
...
Malucos, somos a mola desse mundo, mas nunca iremos muito a fundo nesse dilema tão profundo"
("Hino dos Malucos", por Rita Lee, Roberto de Carvalho, Fernanda Young e Alexandre Machado.)

E não é que começamos cantando novamente!!! Tudo bem, pois voltamos a falar de Machado de Assis, ou melhor, d'A Filha do Escritor. O autor em questão é Gustavo Bernardo Galvão Krause, que, em seu romance, “dá voz” à Joaquim, médico psiquiatra de uma clínica em Itaguaí, cuja paciente, a bela jovem Lívia, imagina ser filha de Machado de Assis.

A obra intriga o leitor, que à medida que acompanha Joaquim em seus capítulos, se pergunta cada vez mais sobre o que lê. O autor nos confunde a todo tempo. E, apesar de pistas, como a admiração de Joaquim pela obra Dom Quixote (Cervantes), ou o poder da impertinente enfermeira, que inverte os papéis de autoridade, ainda somos surpreendidos ao final da trama.

“Nunca desconfiou que nos poucos segundos em que vira a página, você perde um mundo de acontecimentos?”

“O Dr. Joaquim está mais para uma "reencarnação" do Bentinho. O mais provável é que o novo Bentinho esteja inventando a Lívia assim como o velho Bentinho via tudo pelo prisma de seu ciúme. Esse livro do Gustavo Bernardo parece um puzzle. Não me sinto lendo um romance, mas entrando num labirinto, em direção a um enigma.”

O diálogo é permeado com textos de “O Alienista” e referências a obras de Machado, como “Ressurreição”. Gustavo reúne conhecimentos de psiquiatria, filosofia, biografia e obra de Machado de Assis, e aspectos gerais da cidade do Rio de Janeiro nos séculos passados (ao modo do velho Bruxo do Cosme).

“ ‘A filha do escritor’ proporciona, dentre outras coisas, uma overdose de Machado de Assis (no bom sentido) e todo este estilo de detalhamento fiel, a ponto de nos perguntarmos se realmente todos os locais retratados na estória são verídicos!!”

Nos questionamos sobre os limites da doença psiquiátrica, da memória, sobre a construção e transformação da realidade.

“Estamos acostumados a associar a loucura à falta de coerência, a um pensamento caótico. Acho que o que nos surpreende no livro é uma loucura com tanta lógica. O personagem encara a Lívia com lógica, apontando as contradições da alucinação, "diagnosticando" e analisando a loucura dela. Será uma ponta de razão tentando lutar contra a própria loucura? ... Enquanto a Lívia se torna real, ele pode tocar, beijar, o filho é a alucinação dentro da alucinação.”

E, como de doido todo mundo tem um pouco, o diálogo do mês ficou um tanto, digamos... confuso.

“ACABEI.
Mas tenho uma dúvida: fui eu que li o livro ou foi o livro que me leu?”

“Alguém gostaria de fazer uma excursão à Itaguaí para conhecer a Casa Verde? Se a "ficção invade o real", por que o real que experimentamos não faz uma excursãozinha na ficção? Será que vocês vão achar que esse é um programa de maluco?”

“Sempre acontece isso comigo nas leituras do Clube de Leitura. Algum elemento da ficção invade o real. Neste livro são as mariposas. Será que esses mundos sempre se interconectam, a ficção e o real? Sempre soube que havia muita ficção no real, mas quanto de real existe nas ficções?”

“Muita coragem do autor de escrever um romance que atravessa 3 obras do bruxo Machado... Salve a literatura que nos abre o mundo da ficção para compensar a ditadura do "real", fazendo com hoje sejamos Joaquins, ontem Capitus, e amanhã algo menos definitivo do que nosso eterno eu. Essa pluralidade é no mínimo divertida!
Meu Deus! Acho que também sou um esquizofrênico! “

A reunião ocorreu em 30 de janeiro de 2009 e teve um toque mais do que especial: fomos brindados com a simpática presença de Gustavo Bernardo, que numa conversa descontraída, respondeu a várias questões apresentadas pelos leitores sobre sua obra e o trabalho de um escritor. Tivemos a oportunidade de dialogar, trocar idéias e aprender muito com a discussão.

“Maravilhosa a participação do Gustavo Bernardo na reunião de ontem! Um workshop do ofício de escritor.”

Gustavo Bernardo lançou “A Filha do Escritor” em 2008, ano em que se comemorou o centenário da morte de Machado de Assis. Uma das inspirações para o livro foi o boato que correu o século de que Machado teria tido um filho com a mulher do escritor José de Alencar. Boato puro! Não há indícios de que tal fato ocorreu. Mas até que inspirou uma ótima estória. 

“É um romance dentro de outro. O personagem do Gustavo Bernardo se envolve com a personagem de Machado de Assis. É um meta-romance!”

Agradecemos a presença, Prof. Gustavo!