CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

30 de maio de 2009

Leite Derramado

O Livro do mês já havia sido posto em votação, mas até aquele momento ainda não estava decidido se o grupo leria 'Crime e Castigo' ou 'Leite Derramado'. Foi então que um boato de amizade entre o moderador e Chico Buarque de Hollanda desencadeou grande número de votos, favorecendo o último livro.
... ele me disse que vai fazer uma força para trazer o Chico Buarque (são amigos) para o encontro do Leite Derramado. Assim, será um encontro e tanto. Então, meu voto para o livro de maio é para o LEITE DERRAMADO.
meu voto também é para Leite Derramado e será um encontro muito esperado com a possível presença do autor.
Apesar de tentativas de esclarecer a não veracidade do relato, a 'bola de neve' já havia sido posta em movimento e rapidamente, o livro havia alcançado os votos necessários para liderar a competição. Os critérios de escolha foram questionados e algumas manifestações surgiram, pondo em dúvida a idoneidade da votação. Porém, como de costume, o livro mais votado foi acatado por todos. 'Leite Derramado', o quarto romance de Chico Buarque (após 'Estorvo' (1991), 'Benjamim' (1995) e 'Budapeste' (2003)), era o livro de maio.
Thurma, sugiro 'melar' essa votação de Maio. Aqueles que por ventura votaram no 'Leite Derramado' em função da possível presença do Chico Buarque talvez precisem rever seu voto...
..., você está insinuando que... votamos em Leite Derramado por causa dos olhos... verdes ou azuis? nem sei, do Chico Buarque???????????
'Leite Derramado' relata as memórias de Eulálio, um velho homem, em seus últimos dias de vida, num leito de hospital. Membro de uma tradicional família brasileira, Eulálio relembra sua história, a de seus descendentes e a de seus ancestrais. A narrativa, apresentada em ordem lógica e cronologicamente embaralhada, torna mais fiel a identificação do narrador com um idoso. Este estilo de narração foi comparado aos trabalhos do cineastra francês, Alan Resnais, 'Hiroshima Meu Amor' (1959) e 'O Ano Passado em Marienbad' (1961), nos quais o tempo e a memória se misturam a todo instante.  Já o conteúdo histórico e cultural despertou semelhança entre o romance de Chico Buarque e 'Casa-Grande & Senzala' (1933), de Gilberto Freyre (1900 - 1987). O paralelo foi feito através da identificação de pontos de convergência entre as obras, tais como o mandonismo, o patrimonialismo, e a exaltação da riqueza e diversidade de raças e de culturas que formam o povo brasileiro.

O livro foi elogiado por sua poesia, lirismo, pelo estilo do autor em não ter medo de surpreender com palavras, e por sua musicalidade. A leitura foi dita passar a sensação de ouvir Chico Buarque ler, mais do que o primeiro capítulo somente, mas o livro inteiro. Como se “o livro fosse o que não coubesse na canção”.
“Não há um parentesco próximo entre romance e música. Mas existe uma música na estrutura dos meus livros. E também há sempre uma música no fundo da minha cabeça quando escrevo, quase uma trilha sonora, um assovio, um cantarolar que dita o ritmo.” (Chico Buarque em conversa com o cineastra Roberto de Oliveira)
Aparte a inegável genialidade do autor e o mérito da obra, o tema, não atraiu a todos. Alguns o descreveram como monótono, no sentido de começar e terminar da mesma cadência, sem despertar maior ou menor interesse. Sensação, que possivelmente foi acentuada, pelo fato da leitura seguir a de 'Dois Irmãos' (livro do mês de abril). Duas sagas familiares com triste desfecho e visões bem pessimista de histórias de vida, que mostram degradação de uma família, de uma sociedade, e de um espaço físico.
Outra crítica, da qual o livro foi alvo, foi seu término abrupto, causando a sensação, ao final da leitura, de “faltar algo”:
Eu terminei Leite Derramado e estou com uma sensação de que está faltando algumas páginas no final do meu livro. O final é na página 195 MESMO? Que coisa estranha....
Vai ver literatura é isso mesmo, deixa o final em aberto para que o leitor continue a estória do jeito que achar melhor.”
A estória do Eulálio não termina mesmo porque nenhuma estória termina de fato, sobretudo a do Eulálio e seus eulálios gerações afora.”
Estes últimos livros parecem sempre conter alguns quebra-cabeças envoltos em mistérios dentro de enigmas. Os autores não facilitam a vida dos leitores.”
A literatura continua sendo um esforço do homem para se indenizar pelas imperfeições da sua condição. " A literatura, como toda a arte, é a nossa confissão ao mundo de que a vida não basta".”
Sabiamente, foi comentado que “ler um livro do Chico não pode ser igual a ler um livro de um desconhecido”, pois “... quando vamos ler um livro de um escritor consagrado: já vamos munidos de expectativas... isso tanto pode nos fazer gostar ‘a priori’ como nos tornar mais exigentes”. E, de fato, a admiração por Chico Buarque não passou em anonimato.
Admiradora desde todo o sempre do "Chico olhos de ardósia", não havia lido nenhum de seus romances até então. Gostei muito do "Leite Derramado", leitura de pura fruição, Quanto lirismo em sua narrativa! A meu ver, a saga e a decadência dos Assumpção pareceram "menores" diante da beleza do texto e, muitas vezes, me senti "como se" estivesse lendo uma letra de música..., do "velho e conhecido Chico, é claro"...
Não sei se gostei muito do livro, mas concordo plenamente quanto ao lirismo. A narrativa, o uso das palavras, algumas frases super-sensíveis e belíssimas. Comparo o livro àquela frase "Life is a voyage, not a destination". A saga do Eulálio pode não ter me encantado mas a forma de descrevê-la sim. Por outro lado, volto a me perguntar: - estarei eu influenciada por toda a obra musical do Chico e pelos olhos cor de ardósia? Pode ser...
Os temas de discussões online, decorrentes do livro, criaram um maravilhoso Sanatório Geral. Eclético, o grupo, ao longo do mês de leitura, não se intimidou em termos da diversidade de assuntos abordados.

A semelhança entre nomes de participantes, por exemplo, deu origem a frutíferas brincadeiras em relação a duplos, heterônimos e ghost writers. 'O Homem Duplicado' (Saramago), 'Budapeste' (Chico Buarque); e até mesmo trabalho de Sigmund Freud (1856 - 1939) e conto do escritor austríaco Arthur Schnitzler (1862 - 1931) sobre um personagem e seu duplo, foram recomendados. E, como se não bastasse, foi revelada a existência de um duplo de Caetano Veloso no grupo!
“...Chico procura sempre manter separado o escritor do compositor, num esquema que ele mesmo chamou de "esquizofrênico". Quando se dedica à literatura, deixa o violão no estojo e evita ouvir música. Quando termina o livro e passa a temporada de lançamento e de traduções, volta a procurar os acordes e as linhas melódicas de suas canções, com um frescor de quem estivesse começando do zero.”
Outro ponto que desencadeou polêmica, surgiu da comparação entre o ciúme doentio dos personagens Eulálio (Leite Derramado) e Bentinho (Dom Casmurro):
...Se o Eulálio é o Bentinho do livro do Chico, o Chico parece ter os próprios olhos de Capitu.”
Essa de comparar os olhos do Chico com o da Capitu tem um fundo heterônomo: a ressaca de Capitu é a ressaca do mar, a do Chico é a ressaca da birita.”
A brincadeira, provocando alhures, levou essas mulheres de Chico a mirarem, não no exemplo daquelas mulheres de Atenas, mas nos 'olhos de gatão selvagem', como certa vez escreveu Tom Jobim.
Quanto aos olhos de ressaca, são de ressaca sim porque, como os da Capitu, têm a capacidade de tragar os que os fitam.”
Onde já se viu querer falar do Chico e logo dos olhos dele!
Qualquer homem que fale mal dos lindos olhos cor de ardósia do Chico é pura inveja.
Liga não. Isso é coisa de fã. ´Vai levando´ que ´ vai passar´”.
E um tema, dito vital para a humanidade (?!!), foi debatido: a cor dos olhos verdes de Chico Buarque.
Trata-se de uma questão vital para a humanidade (humanidade, feminina, é claro): afinal de contas, os olhos do Chico são azuis ou verdes?
Pra mim, a cor dos olhos do Chico varia de acordo com as condições climáticas, iluminação, local e cor da camisa e até estado de espírito. Nesse vídeo que você mandou, devo concordar, eles estão azuis. Tenho alguns outros DVDs em que eles parecem verdes... lindamente verdes.”
“...eu achava que eram verdes, mas olhando o vídeo postado,... no início tive a impressão de que eram cinzas, e depois verdes e também azuis,...
O fato é que, verdes, azuis ou ardósia, são irresistíveis.”
Foi tal a empolgação, que mesmo os participantes masculinos deram sua opinião e um deles até saiu divulgando espontaneamente a cor de seus próprios 'olhos negros'. Foi um 'Forrobodó'!!!

Divulgação preparada pela EdUFF para a reunião do clube em maio.

A reunião ocorreu no dia 29 de maio na Livraria da EdUFF. Às vésperas, o clima de descontração foi brindado com a volta do malandro, trazendo consigo mais um boato: a possibilidade de ver o Chico olhos nos olhos.
Atenção fãs do Chico, no início do mês enviei um email para a Companhia das Letras convidando o autor para vir à reunião do Clube de Leitura e só hoje me telefonaram informando que há chances de que o Chico compareça porque ele precisou cancelar um evento fora do Rio. Vocês poderão finalmente resolver a questão da cor dos olhos dele pessoalmente. Desconfio que tenha sido um trote.”
Automaticamente, um clima de imagina só surgiu entre os participantes. Alguns pensaram que haveria novo forrobodó no Clube de Leitura e em Icaraí, de onde se contempla Mar e Lua. Outros pensaram ser fantasia, um sonho impossível.
E então como é que é mesmo...? Chico, o dos olhos de ardósia, com Leite Derramado e tudo mais, em nossa reunião? Só falta dizer que vai trazer o violão e entrar pela porta da frente cantando "Tem Mais Samba" para enfeitar o encontro e aliviar a espera! Eita! que só de trote já "tá quas 'bão!' Um pouquinho mais e vira maravilha. Faz isso não, ...
O malandro, se verdadeiramente troteiro, com sua lábia, pode ter pensado: ai, se eles me pegam agora! Porém, os que não vivem sem fantasia (e um bom toque desta deve ser positivo!), deixaram-se levar por um "até pensei que pudesse ser mesmo verdade", afinal o grupo já havia sido contemplado com a ilustre presença de Gustavo Bernardo, autor de 'O Filho Eterno'. E se? O que será que teria acontecido? Seria um Quem te viu, quem te vê? Chico poderia até mesmo chegar fora de hora, pois a expectativa por sua chegada duraria até o fim.
O que acham de mudar o local da reunião para o teatro? O espaço na livraria vai ser pequeno.”
Gente minha... ... se essa história for (ou fosse?) verdade mesmo ... se o moço dos olhos de ardósia vier (viesse?) camuflado no seu "piolho estético" (e isso se o Ouriço não lhe emprestasse elegância!). Carolinas, Janaínas, Januárias e todo o resto da banda? O que/quem mais falta vir ou viria (virá?). Sei lá! Subiríamos todos ao palco para fazer o coro da Ópera do Malandro? Ou ficaríamos de olhar perdido na janela como Carolina sem ver o tempo passar? Niterói vai ser notícia! E boa!
Quanto ao fato de o Chico ir... na vida devemos sempre ter sonhos!!!Porque não?????
Ao final da reunião, pois é, o de Hollanda não apareceu e a autenticidade do convite nunca foi revelada. Sonhos são sonhos e quem sabe outra noite! Mas, agora falando sério, apesar de você, não ter ido à reunião, no Clube de Leitura não houve desalento, nem desencanto. Ninguém ficou injuriado e, como sempre, teve Olê, Olá. Pois, alguns são como ‘o homem sério que contava dinheiro’, ‘o faroleiro que contava vantagem’, ‘a namorada que contava as estrelas’, ‘o velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou que ainda era moço pra sair no terraço’, e a meninada assanhada. Assim como a banda, que com uma marcha alegre se espalha na avenida, em dia de reunião do Clube, parece que a cidade toda se enfeita. Faça Sol e Chuva, estão sempre todos juntos trocando em miúdos tantas palavras que levam consigo um pouco da música e poesia que este autor de ‘Leite Derramado’, homem do povo, domina com maestria.
Estou toda empolgada... não precisa do tapete... seu entusiasmo e o do grupo são constantemente um reforço muito carinhoso aos nossos (pelo menos meus) sentimentos. Até lá!!!!!!
Acabou que quem perdeu uma ótima oportunidade pra participar de um excelente debate, regado a queijos, vinhos e muita energia positiva, foi o Chico Buarque. Mas a gente perdoa ele... não há de ser nada...
E "Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou".
(A banda – Chico Buarque – 1966)

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